quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Confira parte do primeiro capítulo do livro!

Capítulo 1
Criado pela Violência

Cidade de Thombstone – 503... 501 habitantes – 1873

Um estrondo acompanhado pelo estilhaçar de vidros se quebrando acordou o menino Jack de supetão. Deitado numa cama dura forrada de palha, no minúsculo quarto com paredes de madeira velha, a criança de dez anos olhou assustada para uma mulher com pouco mais de quarenta anos agachada debaixo de sua janela, com vista para o quintal. Ela usava um rifle winchester nas mãos.
- Mãe! – reclamou Jack.
Reclamou como reclamava quase todos os dias, quando situações como aquela aconteciam desde que ele se entendia como gente.
- Diiia filho. – cumprimentou Jane com um sorriso, que lhe faltava dois dentes.
Outra bala entrou pela janela e furou a bandeira dos Estados Confederados pendurada na parede oposta. A mulher levantou-se e disparou três vezes como resposta.
- Morre seus bandos de esterco de cavalo manco! – gritava ela. – Desculpa te acordar meu filho, mas os diachos dos Rojos começaram cedo hoje.
- Rojos?! – perguntou Jack sentando na cama alheio aos projéteis penetrando pela janela e pelas frágeis paredes do quarto. - Não eram os Braxter, que vinham causando problema?
-Vish! Naaada. Os Braxters sossegaram o facho depois que os Rojos empacotaram o filho mais véio deles. Agora a batata assô foi com os Rojos.
A guerra entre as três famílias: Rojos, Braxters e Davis já duravam dez anos desde o fim da Guerra de Secessão que dividiu o país ao meio. A maioria dos homens daquelas famílias havia lutado na guerra ao lado dos Confederados, mas agora eram inimigos mortais. O motivo pelo qual se odiavam, ou o que iniciou aquela pendenga, ninguém mais sabia, mas não importava.
A violência era cotidiana na pequena Thombstone, com cerca de quinhentos habitantes variando para mais ou para menos dependendo do momento e do estado etílico dos atiradores. Quando não eram as três famílias se matando, a violência era aquela típica de uma região de fronteira, em um país que se expandia rápido para o oeste. Os Fora-da-lei na estrada, confrontos com índios e todo tipo de confusão eram naturais naquelas terras, além da tradicional guerra entre famílias. Melhor que isso só uma boa briga de bar.
Jack bocejou sonolento enquanto esticava os braços numa boa espreguiçada aparentemente dicotômica com o cheiro de pólvora no ar, os cartuchos e destroços espalhados pelo chão e o som de tiros distantes, prontamente respondidos por Jane Davis rindo e xingando o tempo todo. Isso poderia realmente parecer estranho há um observador estranho, mas, por essas bandas, nada é mais tradicional.
O garoto cruzou a porta do quarto que dava acesso há uma sala não muito maior do que o cômodo anterior. Nela havia pratos empoeirados enfeitando a parede, uma mesa com restos de comida, que pareciam estar ali há pelo menos três dias, um sofá com estofamento rasgado, onde um cachorro vira-lata velho dormia profundamente. Ao lado do sofá, numa cadeira de balanço, um homem com mais de sessenta anos, exibindo uma longa barba branca e pontuda, acompanhava o sono do cão roncando alto, apesar do cachimbo babado na boca.
Um imenso gambá passou correndo por entre as pernas de Jack, ao mesmo tempo em que uma senhora gorda saía pela porta lateral que ligava a sala à cozinha. Ela carregava uma machadinha enferrujada e esbravejava agitando os braços.
- Pega o bicho que ta fugindo nosso rango!
Jack se abaixou, mas o animal foi muito mais rápido do que ele e passou por entre suas pernas, correu em direção à porta aberta e antes de ganhar a liberdade derrubou a escarradeira de metal que jazia cheia até a boca ao lado da cadeira de balanço do vô Davis.
- Mas que catiça! – gritou a vó Davis.
- Vó – chamou Jack ignorando o amaldiçoar do animal sortudo. – Onde está o pai?
- Tá no quintal trocando bala com os vizinhos lá de cima.
Jack cruzou a sala, levemente abaixado, já que ocasionalmente um projétil atravessava o cômodo alojando-se na parede e criando mais um buraco da coleção de marcas de bala que existiam na parede. O menino olhou pela porta e viu a figura inconfundível de seu pai segurando em uma das mãos o revólver 38 de tambor e na outra, uma garrafa de algum destilado fabricado no quintal dos fundos, cujo rótulo de cortiça exibia três letras “X”.
Sam Davis era o nome do homem que ria, bebia e atirava completamente exposto à própria sorte. Ostentava um grosso bigode que se juntava à barba deixando o queixo nu. Na cabeça tinha um chapéu de cowboy, que Jack nunca o vira sem, e nos pés inseparáveis botas de couro tão velho que o pé esquerdo expunha um buraco, deixando o dedão feio de Sam à mostra.
O pai de Jack estava embriagado, como o deserto é quente e o cacto tem espinhos. O garoto não sabia se Sam havia bebido a noite toda sem dormir, ou apenas começara logo pela manhã, mas pouca diferença isso fazia. Jack o preferia assim, pois quando estava sóbrio, sua violência tornava-se mais eficaz, além de descontar suas frustrações na própria família.
- Paaai! – chamou Jack com a entonação característica da região sul.
O homem se virou com os braços abertos, ainda gargalhando. Então uma bala quebrou a garrafa em sua mão, passou zunindo pelo ouvido de Jack e entrou na casa arrancando o cachimbo da boca do vô Davis que só então acordou gritando:
- Os yankees estão atacando! Mata! Mata! Ninguém vai libertar meus escravos!
- Do que cê ta falando fiote de cruz credo! – era a vó Davis. – Você nunca conseguiu ter um negrinho sequer!
- Pode ser! – continuou a gritar o velho indignado. – Mas na minha época eu pelo menos podia ter um! – e começou a cantar – Deus salve o sul! Seus lares e altares! Deus Salve o sul!
Ao som de God Save de South, hino dos Estados Confederados, e nervoso pelo desperdício de uma boa bebida ruim, Sam Davis atirou com vontade contra seus inimigos acabando por expulsá-los de seu quintal.
- É meió chisparem daqui, seus galinhas! – gritou Sam rindo a vontade. – Agora vem cá muié que nós vamos enchê o barde até distripá o mico!
Assim amanheceu mais um dia em Thombstone. A cidade era dividida em três, o que poderia parecer um absurdo para um observador de fora, pois tinha apenas uma rua de terra, com pouco mais de quinhentos metros de comprimento. Na parte de baixo da rua ficava a propriedade dos Davis e seus aliados. No meio estavam os Braxters e os Rojos, os mais ricos, ficavam no alto da rua. A cidade, que parecia não ter nada, tinha o essencial para as necessidades daqueles homens e mulheres esquecidos por Deus: uma prisão, com uma única cela, onde normalmente ficavam trancafiados forasteiros – bandidos ou não – e onde também estava o xerife, escolhido entre os mais bêbados e gordos da cidade. Havia também a Igreja e o cemitério, onde trabalhava o homem mais feliz da cidade: o fabricante de caixões. A Igreja era o lugar neutro, assim como o saloon, mas o primeiro ninguém gostava de frequentar - apesar de isso ocorrer com frequência em razão das frequentes missas de sétimo dia e velórios - e o segundo era lugar certo onde encontrar quem quisesse, todas as noites.
O fato do saloon ser respeitado como terreno neutro não significava ausência de violência, apesar de raramente alguém morrer lá dentro. No saloon você não era respeitado se não saísse de lá completamente bêbado e se não tivesse arrumado uma confusão qualquer.
E assim cresceu o pequeno Jack. Numa família violenta, de uma cidade violenta, numa época violenta. Sua mãe desejava no fundo de seu coração caipira que seu filho pudesse crescer num lugar melhor, mas não fizera muito em prol disso. Jack cresceu aprendendo com a sua família e a sua cidade, tudo do mal e do pior.

(...)